Filed under: Uncategorized
Das expectativas que até hoje se criaram,
a mais ingênua e frustrante delas
foi a que Deus depositou em nós.
Filed under: Uncategorized
Se não mais semeasses
em solo estéril e infrutífero,
se poupasses teus antídotos
do que está não apenas muito enfermo,
mas fatalmente condenado,
se não mais te lançasses
em débil composição óssea
contra a firme parede pétrea,
Se não tentasses fixar raízes
no fluxo implacável da corrente do rio,
Se girasses minimamente a órbita
dos teus olhos em direção
ao infinito que te cerca e te permeia,
certamente intuirías:
“Há verdades que são cruéis e imutáveis,
entretanto, aqui estou e respiro.
E se a morte insuficientemente me seduz
é porque sou potência ainda!”
Filed under: Uncategorized
A todo momento
desejo o esquecimento
da indelével imagem de ti.
Coisa que detesto e renego,
mas que permanece ali,
inerte ao andar do tempo,
ferindo até o sangrar do ego,
cujo orgulho é tremendo.
Tal espectro se me afigura
por todos cantos da cidade
e me enegrece e amargura
os recônditos da personalidade.
O que antes fora apenas
uma faca ao peito a me pungir
atribuo-a agora ao mundo todo
e de gente, tento fugir.
Descabidos são os consolos do budismo.
Se tudo fosse Um, o que agora sinto eu,
sentiria também tu, e depostos de cinismo
não mais nos magoaríamos.
Filed under: Uncategorized
Eis que o auto-desprezo rivaliza a presunção:
- Sou péssimo no que faço! Sou péssimo!
- Mas todos também o são!
Filed under: Uncategorized
A vida é um vício. O mais arraigado.
Da qual somente o suicida vê-se reabilitado.
É de longe o mais audaz,
o covarde está em nós.
Suporta-se o atroz,
e fazer…nada se faz.
Vem o labor, que despedaça da alma, a flor.
Vem o calor e o inverno do amor.
Da rotina inescapável, vem torpor.
Vem a ausência e nostalgia
que ser nenhum pode supor.
Vem impotência e letargia
frente às faces do horror.
Enfim tanta anuência, vem a grande aporia:
Em vez de delongar, por que a gente não se abrevia?
Filed under: Uncategorized
De toda minha vida
gozo apenas um terço dela.
No trabalho, não existo,
e enquanto durmo, não vivo.
Sou e serei sempre
a terceira parte de mim.
Filed under: Uncategorized
Roupas, calçados, milhares de quinquilharias,
aonde tu te escondes por trás de tantas mixarias?
Filed under: Uncategorized
Tenho ânsia fremente de saber
o que estou fazendo de mim mesmo nessa vida.
Mas quem de fato saberá dizê-lo?
Por trás das cortinas do comportamento socialmente aceito,
incontáveis reis de outrora tem suas cabeças ceifadas
pela dinâmica assassina de meu íntimo.
Revoluções irrompem aqui dentro, todo o tempo,
e quando olho para fora, tudo parece o mesmo.
Que tenho feito de mim, que tenho feito?
Pequeno ponto sem referência!
Filed under: Uncategorized
Ainda que Deus exista,
terá mais respeito
à minha dúvida sincera
com relação a Ele,
ou a uma mera
devoção oportunista?
Deus meu, desconfia de quem te roga!
Filed under: Uncategorized
Eu mudei, eu mudei!
Eu mudando, mudarei!
Mas o que mudou para mim
ter eu mudado assim?
Filed under: Uncategorized
Calor, calor, calor,
deixa tudo insuportavelmente mais insuportável.
Ânimo alterado, irritadiço pendor,
com pressa de tudo a dar-se um fim.
Pelo amor de mim!!
Filed under: Uncategorized
Atento à multidão, observo um caos
de histórias de vidas se chocando
e formando novas histórias de vida caóticas,
que por sua vez, encontram-se com outras histórias de vida,
que geram novas histórias de vida caóticas, e assim, indefinidamente…
Diante desse cenário pitoresco, indago-me: quando isso vai parar?
Quando o caos reinar sobre as migalhas da última história de vida, eu presumo…
Filed under: Uncategorized
Todas as inteligências de todas as pessoas transcedem a minha,
muito embora sejam-me todas insuficientes.
Vivem a dizer-me coisas que ora parecem-me
parcas conclusões e ora, sobejos delirantes.
Que terá minha inteligência a dizer a essas pessoas, todavia?
Se tudo que faço é perceber, sempre incapaz de articular…
Filed under: Uncategorized
Falar sobre as coisas não as resolve, muito menos suaviza.
Entretanto falo…falo pelos cotovelos!
Tagarela, verborrágico, enfadonho, hiperbólico!
Digno de pena, ou de um belo de um escarro.
Filed under: Uncategorized
Não estou contente na alegria,
e nada fico fora dela.
Como ouso!?
Filed under: Uncategorized
Bem-aventurados os néscios e ingênuos,
porque serão subtraídos à responsabilidade.
Bem-aventurados os desatentos,
porque não verão a vileza nos atos.
Bem-aventurados os satisfeitos,
porque não terão a agonia da busca infinda.
Bem-aventurados os pobres de espírito,
porque bendizerão tudo aquilo que é esmola.
Bem-aventurados os de entusiasmo,
porque verão brilho no que de fato pega fogo.
Bem-aventurados os limpos de coração,
porque todos os outros são cheios de sangue.
Filed under: Uncategorized
O problema de amar a beleza é
que não se está sozinho no ato de amá-la.
E justo por esse motivo, sozinho fica-se.
Pois estar junto ao que é belo
é depreciar seu estado próprio de opulência,
algo inadmissível.
Filed under: Uncategorized
De onde provém esse manancial inacabável
e tão perverso que só verte mágoa?
Vejo-me repetidas vezes sob o esforço hercúleo
de manter o olhar relapso e indiferente
velando o desejo enfurecido
de partir-te em mil pedaços e atear-lhes fogo.
Devo gracejar nas palavras para amenizar seu peso
e disfarçar o aperto que encobre o peito?
Não resolve, não funciona! Meu deus!
Ando fatigado demais de fazer média, e da comédia,
e do riso em grupo, e do escárnio,
e das conversas tolas, e de gente boba,
e do orgulho, e das ambições vazias,
e do sexo raso, e do amor falado,
e das disputas pérfidas, e do engano imputado
E das mentiras! Das mentiras, Meu deus! Não as suporto!
E isso está em toda parte, em toda parte!
Te apercebes! Notas bem!
Além disso e sem isso, resta o quê?
A eterno desgosto de não poder lutar
contra aquilo que é onipresente,
e que em mim faz questão de não tocar.
Filed under: Uncategorized
…e só escrevo porque falar
não serve para nada.
O que quer que diga eu sob a forma escrita,
muito embora tu não leias,
e até te faça gosto ignorar,
haverá sujeito digno a atentar,
e quiçá, bem compreenderá.
E isso muito me basta e acalenta.
O som da fala é tão fugidio
à memória e ao raciocínio
que prefiro a voz da escrita ressoando
por aí nos tímpanos oculares dos que
dispõe de tempo a gastar comigo.
Talvez eu fosse mudo,
escutar-me-ia de verdade o mundo todo.
Filed under: Uncategorized
Eu que tentei ser como vocês, supliquei pra ser aceito,
benquisto, fazer parte, andar junto, sorrir junto
e esquecer de todas as mazelas que a vida enfia goela abaixo…
Mas que inferno, “Tu não pertences!”, é o que dizem todos os olhos.
E recolho-me cabisbaixo, eu não pertenço…
Se me obriguei a ser maior que todas as coisas mundanas
e efêmeras foi porque a mesquinharia rejeitou-me veemente.
Filed under: Uncategorized
Se a vida é destituída de sentido,
qual o objetivo implícito de cada ato, ínfimo que seja?
Por que seguimos agindo ante a inexistência de um fim último?
Por outro lado, quem seria capaz erigir Finalidade
resistente o bastante às investidas corrosivas da Dúvida?
É melhor parar por não ter para onde ir,
ou andar pra sempre, sem chegar?
Filed under: Uncategorized
Quando se deseja encontrar razões suficientemente plausíveis para se abandonar qualquer tipo de empreendimento, recorre-se a uma das perguntas mais antigas e destruidoras já colocadas pela humanidade:
- Para quê?
Filed under: Uncategorized
Que imenso poder possui sobre ti,
aquele que, ao impor flagelo a tua pessoa
faz-te desdenhar e maldizer
a Humanidade por toda eternidade.
Filed under: Uncategorized
Riso: a única resposta que o humor espera.
Ri-se mais por complacência
que por um impulso irrefreável.
Filed under: Uncategorized
Qual a melhor maneira de preservarmo-nos do desengano
senão assumindo a priori que todas as pessoas
são inveteradamente mentirosas?
Filed under: Uncategorized
Não me importa ser feliz.
Eu preciso é ser possível.
Felicidade é artefato obsoleto
para a gente de espírito ambicioso.
Filed under: Uncategorized
Haverá objeto de tua estima
que te estimará com igual intensidade?
Esvazia-te por ti mesmo!
A tempo de evitar
que aquilo que por ventura,
for te preencher, não termine em se esgotar,
deixando-te igualmente esgotado
de tanto vazio forçado.
Filed under: Uncategorized
Analisa o que impregna
teu pensamento.
Pois padecimento
e fenecimento
vem também de dentro.
Filed under: Uncategorized
Como é inútil sentir raiva de tudo o que não muda.
Como é inútil sentir raiva de tudo.
Como é inútil sentir raiva.
Como é inútil sentir.
Como é inútil.
Como é.
Filed under: Uncategorized
Quer tornar uma coisa que não existe em realidade?
Fale muito sobre ela e assegure-se de que falem dela da mesma forma.
Filed under: Uncategorized
Seria minha própria mão capaz
de alçar-me para fora do afogamento?
Filed under: Uncategorized
Os anos alçam vôo arrastando-me pelos dias,
soterrando-me, no trajeto, sob inumeráveis aporias.
Filed under: Uncategorized
Eu renuncio o primeiro passo.
Abdico de meu empreendimento mais elementar
para que tua responsabilidade,
vez ou outra, também pese sobre ti.
Que a primazia da ação
não clame sempre por meu nome,
pois há tantos outros esquecidos…
***Nada vem do nada
Filed under: Uncategorized
Por que ainda não desisto?
Se todo movimento traz à tona o inesperado,
se todo desejo é por tudo rechaçado.
Por que ainda insisto?
Quê pode a exasperação
contra a ceguidão indiferente das coisas?
Se tudo me perpassa e me pretere,
se o que sou, sou na medida
em que o mundo me permite e determina,
qual feito chamaria meu?
A matéria só concede vontade aos seres
para ter do que zombar.
Então…por que eu ainda não desisto?
Filed under: Uncategorized
Tão irremediável é o nível
de minha incredulidade
que não sou nem capaz de ter fé
na concretização
dos futuros que projeto
e persigo.
Filed under: Uncategorized
Não se diz o que se quer.
Não se ouve o que se quer.
Não se aprende o que se quer.
Não se vive o que se quer.
Não se ganha o que se quer.
A vontade é um tremendo desperdício de energia.
Filed under: Uncategorized
O fruto que a mão alcança
parece sempre o mais insípido.
Filed under: Uncategorized
Só passei aqui para dizer
que não adianta te dizer de coisa alguma.
Mesmo isto, é um tremendo esforço em vão…
Tão vão quanto o espaço interior
de tua casca que aparenta incólume,
mas que o tempo há de corroer,
e nada teu ficará.
Vejo este belo semblante no retrato
que deseja ardentemente um espírito que o preencha,
mas que não sabe ser mais que simples rosto…
e nada teu ficará:
nem face, nem curvas, nem corpo,
nem cheiro, nem riso.
A cada tique do relógio
um fragmento teu se degenera ou desvanece,
e tuas reminiscências sensoriais
lentamente desaparecem.
E eu já nem recordo do que mais sentia falta,
creio que seja do objeto
da mais alta estima, expectativa, e aposta.
Do fato “consumante”, da excitante espera
do vir-a-ser…
Entretanto, o ser não veio, e eu não vi,
e em vida não verei
porque nada teu ficará…
Filed under: Uncategorized
Ando precisando de mais peso, pra sentir mais leve todo o resto.
Filed under: Uncategorized
Em minha cabeça,
um turbilhão de conflitos indecorosos
que se refletem em meu rosto
ora esmorecido, ora enraivecido.
Como se todos os acontecimentos terrenos
tivessem de ser processados de uma só vez
com o uso exaustivo de minhas sinapses.
Deve bem ser isso.
Pois teu semblante é sempre tão sereno.
E não há mal algum que te assola na calada da noite.
Ele simplesmente deve bater à minha porta
para deixar-te dormir em paz.
Filed under: Uncategorized
Alguns precisam morrer para permitir que outros vivam.
Não é assim? Seja física, ou simbolicamente?
Penso com isso, que a morte simbólica seja
a pior morte que se pode conceber a um indivíduo.
Porque o morto está consciente de que morreu.
Na morte física a consciência não opera mais.
Quando não se vive mais aos olhos de outras pessoas,
e sua existência passa a ser inócua, nula, e despercebida,
qual é então, a saída para esse alguém que morre simbolicamente?
É tornar-se também um assassino, e quiçá um bom coveiro.
Filed under: Uncategorized
Não perdoo, não sei deixar pra lá.
Sou um poço de amargura
que corrói de imediato aquilo que cai no fundo.
Quem me dera poder importar-me menos,
assim os outros importariam-se mais.
Filed under: Uncategorized
Certa vez, um amigo me disse,
que o amor não fala de nada além de si mesmo,
porque não corresponde a nenhuma realidade
que possamos de fato vivenciar.
Algo me diz que ele estava correto.
Afinal, será que existe realmente
uma linha que separa o gostar do amar,
e que esse limite possa ser ultrapassado?
Será que, no intuito de que
reconheçam o valor do nosso sentimento,
não reforçamos sua própria validade com
conceitos superlativos?
Por acaso você conhece algo maior do que “amor”?
Se houvesse palavra de maior envergadura,
certamente seria sua substituta imediata.
Sempre tentamos ser convincentes
com as melhores armas que dispomos.
Principalmente se são exitosas em dissimular.
Dizemos que amamos para reforçar
vínculos com as pessoas de nossa estima.
E são só pessoas que estimamos, não mais que isso.
Quando uma palavra não encontra um objeto equivalente,
prefere inventá-lo que se destruir-se a si mesma.
Gosta-se muito, é verdade, mas gostar é querer o que convém.
E mesmo ciente disso, caí nessa tocaia infame de palavras.
- Mais que merecido, Sr. Bruno!
Filed under: Uncategorized
Sinal mais claro de impotência:
Reconhecer-se como uma pessoa desagradável,
desprezar tal condição aterradora,
e mesmo assim, ver-se incapaz de não o ser.
Filed under: Uncategorized
Não tentes me dizer quem sou,
pois nem perto chegarás.
Não tentes me ludibriar,
pois não te sustentarás.
Não tentes debochar,
pois tua risada não irá durar.
Somos todos frutas podres
impedindo o fedor de exalar.
E ele, cedo ou tarde,
há de se espalhar.
